domingo, 15 de novembro de 2009

Penso isso.
É muito mais que a morte física o que pode aliviar-me a dor.
"Ser poeta dói" - disse-me alguém.
Importante alguém.
Mas um dia secam as lágrimas: e secam

sábado, 14 de novembro de 2009

Se algum dia me perguntarem quem eu sou, não hesitarei em não responder. Acredito que, tal como as palavras se compõem de letras, um ser pensante é composto de experiências. Uma mulher é composta de vidas. Um homem também. Somos compostos das tantas vidas que transpassam as nossas e, tenho completa certeza, nos influenciam por completo. A não ser que sejamos medíocres. Se formos medíocres, realmente, não mudaremos nunca. Não cresceremos, não deixaremos serem aperfeiçoados os nossos defeitos ou expandidas nossas qualidades. Saberemos quem somos e isso não é bom pois isso implica em assumir uma limitação muito humana e mesquinha que é a intransigência.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Tento, às vezes,
calcular a intensidade com que os sentimentos se me afloram.
Inútil labuta, é bem verdade.
Transformar em concreto o que se sente não é trabalho para números.

Os sentimentos são assim:
ou se lhos deixam quietos, em sua louca efervescência
ou se lhos transformam em poesia.

Gosto de sentí-los, de tocá-los com o sangue
com a pele.
E, ah, como é bom sofrer quando se sente a poesia...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Silêncio. às vezes ele é tudo o que preciso.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.

Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.

Dirás que sangue é o não teres teu ouro

E o poeta te diz: compra o teu tempo.


Contempla o teu viver que corre, escuta

O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.

Enquanto faço o verso, tu que não me lês

Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:

"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".

 

Irmão do meu momento: quando eu morrer

Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:

MORRE O AMOR DE UM POETA.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,

E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto

 

Não cabe no meu canto.


[Hilda Hilst]

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

-
Daquilo que faz o "onde" não ser "a-onde"
Do que faz o não não ser igual ao pão.
E do que faz a dor rimar com amor.
(inevitável rima)
E com o ardor.
E rimam, se rimam.
e riem-se, se riem-se...
Ai palavrinhas que me divertem...
-

domingo, 18 de outubro de 2009

Mas todos os meus vocábulos são, agora, compostos de tuas letras.

E todo o meu sentir reflete o meu desejo.

E a minha vida gira em torno de um não-sei-o-quê.

Um tal aí, dono do meu querer,

me faz sofrer...

E sem saber

Tenho vontade de matar pouco a pouco

afogar de fininho o que habita meu peito

ai que vontade.


sábado, 17 de outubro de 2009

quase um mês:

foi o tempo que se passou desde a última vez que a inspiração bateu-me à porta.

Foi o tempo, curto tempo, longo...

Foi-se o tempo.

O tempo que tampa a vista e o tino

Que fica à pino...

O pino de um pinto que pinta

Pinta o sete da seta.

Ela aponta pro céu e pra dentro

Dentro do sete

Dentro do seio

Do peito aberto, partido e repartido

partido e repartido

partido e repartido

partido e repartido

partido e repartido...


droga! 

grog

drogue

groga

gringa

dringo

brindo

rindo

dormindo

dormingo

domingo

pingo

pinga

droga!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Se aquela senhorinha que passa pelo portão de casa neste exato instante soubesse que tudo teria sido diferente caso ela não tivesse aceitado as birras e manias do babão que era seu marido talvez não estivesse, agora, acabado de entrar no elevador tentando encontrar as chaves do apartamento. E talvez não tivesse que abrir a porta , o que a pouparia de sentir o cheiro abafado do mofo guardado nas pregas dos porta-retratos e da geladeira velha, a qual o marido se recusa a trocar. Se aquela senhorinha soubesse, ela hoje estaria vivendo em um daquelas casas perfumadas e fresquinhas e ao abir a porta se daria conta de quão gratificante é sentir exalar a luz que emana do desejo respeitado, do bom instinto humano como coordenador de suas ações, eu disse o BOM instinto. Aquele que quer ver o hóspede confortado e agradavelmente saciado. Aiai, se aquela senhorinha soubesse...
[continua]

-Vamo. Vamo beber um pouco.

-Não, não quero, não.

-Eu já sabia.

-Se já sabia por quê perguntou?

-Porque eu queria ouvir o não sair da tua boca. Funcionou. Ele saiu três vezes.

-Não foi, não...

-Viu só? O não é verbete constante em teu vocabulário.

-Ah, vai te foder.

-Só se você for junto.

-Junto pra onde, seu bocó?

E então ele se aproximou. Deu um chêro no cangote. E então eles passaram a noite toda se fodendo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009


Por acaso algum dia você se importou
Em saber se ela tinha vontade ou não
E se tinha e transou,você tem a certeza
De que foi uma coisa maior para dois
Você leu em seu rosto o gosto,o fogo,o gozo da festa
E deixou que ela visse em você
Toda a dor do infinito prazer
E se ela deseja e você não deseja
Você nega,alega cansaço ou vira de lado
Ou se deixa levar na rotina
Tal qual um menino tão só no antigo banheiro
Folheando as revistas,comendo a s figuras
As cores das fotos te dando a completa emoção
São pe rguntas tão tolas de uma pessoa
Não ligue,não ouça são pontos de interrogação
E depois desses anos no escuro do quarto
Quem te diz que não é só o vicio da obrigação
Pois com a outra você faz de tudo
Lembrando daquela tão santa
Que é dona do teu coração
Eu preciso é ter consciência
Do que eu represento nesse exato momento
No exato instante na cama,na lama,na grama
Em que eu tenho uma vida inteira nas mãos...


[Ponto de Interrogação
Gonzaguinha]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Um lixo

Esses poemas?

São mesmo um lixo.

De que me servem além de pôr pra fora todo lixo que já existe em mim?

Ou transformar, de belo em feio,

as entranhezas do meu sentir...

Ah, anônimo, caro desconhecido.

Concordo contigo!

Esses poemas são mesmo um lixo.

domingo, 13 de setembro de 2009

Me parece,

e é bem certo que o seja,

não haver fim a essa minha disputa com o concreto

Que essa solidez,

feita de sonhos e sentidos,

é mais certa que o nada.

E mais dura que meu verso.

Duro? Até parece...

Esse verso molinho.

Esse verso de nada.

De nada serve.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

-

Creio, sim, que isso seja coisa dessa necessidade muito minha de sofrer. Necessidade que me faz querer, mesmo sabendo que o desapontamento virá, sentir-me viva e viva. Não combino muito com esses tipos que têm medo da paixão. De mim ela é grande amiga, não posso viver sem. E, ah, vá lá... Que gosto tem viver a vida sem sofrimento? 

Sofrer

Perder

Querer

Ai, verbos que definem a minha existência.

-

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Carta a um professor

Grande mestre e professor, Neylon,

“Ninguém é poeta por saber rimar...” Disse um dia um tipo meio poeta, meio tonto. Eu, cá com meus botões, e na minha infame mania de aplicar os versos que leio e escuto às mais variadas situações que me venham à frente, digo que a carreira profissional de um homem, bem como seu reconhecimento no meio em que vive é medido não pelos versos e sim pela paixão com que exerce o seu papel. Veja que falo de paixão, uma paixão que diverge daquela versejada por poetas e trovadores, uma paixão que é refletida em cada ato e cada passo dado durante a longa jornada da vida do indivíduo.

E é esse o sentimento que diferencia a pessoa comum do profissional bem sucedido. É ele também o que lhe permite discernir o melhor do “não tão bom assim.” Creio, portanto, que a sua escolha nesse momento é a mais sensata e certamente lhe trará bons frutos. Frutos estes que talvez não se comparem à admiração que você nos inspira. Ou, quiçá, sejam frutos maiores e mais suculentos estes que, agora, nascerão sobre a terra já firme e adubada, forte o suficiente para que não sofra com a seca ou a enchente.

O fato é que essa tua paixão pelo trabalho cativa e apaixona a cada um de nós. Cada um com suas particularidades, é bem verdade. Vá, cresça, viva com a certeza de que serás sempre lembrado e que tuas aulas, teus conselhos serão sempre úteis nessa nossa caminhada. Seguiremos distantes, porém sempre unidos pela paixão que a vida inspira a todos nós.

Um grande abraço, 

Jamile Gonçalves

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Louvarei o dia em que encontre alguém que assuma as
muitas tolices que fez sem culpar,
por elas, a outrem.


Ai do dia em que fui corromper minh'alma
no amibiente poluto da cidade grande.
Ai do dia
Ai de mim!

Vou morrer mesmo é sozinha.
Eu e meus PrOblEMAS

O corcunda e a banguela
Que belo par faziam!

fuçando vi, outro dia,
entre as fotos mais antigas:

O primeiro teimava em fazer pose
e a segunda, timidamente sorria.

Ele tão elegante
E ela em soberania

domingo, 23 de agosto de 2009

Cinza e oca

Perfídia:

continua-se aqui, deste ponto em seguida, o que se deu após o poema anterior. Não é sabido dia hora, mês, ano ou qualquer uma dessas coisas mundanas. Sabe-se apenas que assim se deu. E que a nossa personagem, vítima da teimosia do interlocutor, atravessou a estrada - que encontrava-se interditada - e veio parar na metrópole. Sentiu então o cheiro da dita-cuja. Aleivosia. Perfídia pura, era o que inspirava. Guiando o cãozinho pela coleira - sim, o mesmo cãozinho do latido oco - subiu e desceu a trinca de ladeiras que desenhava a estrada. Uma gota d'água pinga em seu nariz. Água salgada, era aquela. De suor, não de chuva. Não chovia há uns 9 meses na cidade que aprendera a ser seca. Cidade-reflexo do cãozinho fracote. O cão parecia tirar das tripas os uivos cinzentos que ecoavam na casa da dona. Então, quando à noite, havia apenas os dois, a dona e seu cachorro, abandonava-a por um instante, e enquanto ela ia buscar uma caneca de leite morno, a TV exibia o intervalo da novela das 8, ia lá fora e uivava. Era um ritual que exigia concentração e método. Depositava na soleira da porta seu traseiro magro. Observava os vagalumes que se confundiam com as pedrinhas de brilhante que piscavam no céu - sobre aquela terra seca só podia brilhar mesmo um mar de pedras. Então lembrava-se dos dias em que o verde enchia-lhe os olhos: os mesmos dias em que brincava entre as vacas na ordenha, os dias em que tentava tirar do balde do homem que pegava peixes a tilápida mais rechonchuda que havia conseguido pescar. Agora, os únicos peixes que estão no açude são umas piabinhas miúdas, que nem dava gosto de comer. Nem espinha tinham, as diabinhas. Respirava, e soltava, numa melodia que lembrava o assum preto de Gonzaga, que lembrava a poesia do Assaré, que lembrava...

Cinza. Era cinza e oca. Cinza oca e ,
;
.
Não há nada que remeta à perfídia nesta parte. Isto serve para mostrar, leitor, como quem escreve é falho em seus pensamentos. Não desenvolvida a ideia inicialmente proposta, asseguro-lhe de que voltarei aqui, ainda, não importa em que dia ou hora, e retomarei, com todo o empenho que tive ao sonhar este sonho de quase-sertão, às palavras que exprimem o inconsciente desta autora.

Tira-Teima

*

-Mas assim foi que fiz.
-Impossível!
-Mas que foi, que foi, que foi! -repete-se
-Pois repito que não! Talvez tenha sido feito, sim, mas de outra maneira que não essa.
-Olha, que insistes! Queimarás a língua em sal quando aqui trouxer a prova do que é dado, e verás então que essa discussão não passa de tolice!
-Pois bem, veremos!

Eis o diálogo da teimosia.
Que rima - em terminação
com a palavra aleivosia.
Esta que, por sua vez, significa traição.
Traição.
Traição
Traição de mundo cão.

*

(ouve-se um latido oco, ao longe)

*

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A gosto

Eis que bate à porta e anuncia:
-Vinte-um! Vinte-um do mês chegou!
e exprime, assim, o frio - enfim.
Mas um frio que não precisa de malhas,
roupas,
moletons e afins.
Um frio que vem de dentro, da alma da gente
Um frio de querer que tudo passe feito vento alegre
Feito água de corrente
Corrente que não prende - acalma
A calma vem, que dá gosto.
Que gosto!
Vai-te embora, agosto!

sábado, 15 de agosto de 2009

Difícil é tentar conversar quando este que vos escuta já tem uma resposta pronta que só precisa ser adaptada ao que dirás. É que assim, sem precisar ao menos ouvir, o discurso-padrão vem de tiro: rápido feito bala de carabina, feito dor de injeção. É que o ouvir não é mais o necessário. O necessário é falar. Falar o que quem escuta, não quem precisa falar, deseja. E desejo é o que não falta nesses tempos de nostalgia. Desejo de abraçar, ser ouvido, escutado... É mesmo tão difícil apenas ouvir, sem palpitar, sem comentar - ao menos fingir que o nosso interior é refletido cá fora? Sei bem que necessito de um eu fora de mim. De um eu que desafie. Que não aceite-
,
.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

-
Lamento
Se meus poemas,
verdes como são,
não dizem a verdade contida em meus olhos.
Lamento se não sou tão amiga das palavras
quanto sou dos pensamentos.
Lamento
Quando não me faço entendida
Quando me sento e escrevo
-que pretensão!-
querendo dizer o indizível.
Querendo dizer a confusão.
Mas que lamento ainda mais
por ser ridícula a ponto de lamentar por tudo isso
e continuar aqui,
na insistente tentativa de escrever um pouco mais
e fazer disto o meu Muro dos Lamentos.
Ai ai,

sexta-feira, 31 de julho de 2009

*



Vazio:

Eis o substantivo que melhor define a minha
inclinação poética nesse instante.



*

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A voz

A voz não fala
A voz se cala
Ninguém ouve a voz
Ninguém sente a voz
A voz não faz ninguém chorar
A voz não faz ninguém mais rir
A voz é muda, meu Deus!

Ao milésimo visitante
Meus pêsames e minha glória
Os primeiros pelo teu ócio
Os segundos por ter feito dele algo produtivo
Afinal,
poesia é sempre bem-vinda
E tão sempre bem-vivida
Ao milésimo de segundo
(que é a duração do meu verso)
Estaremos sempre aqui.
Eu com meus versos
Tu com teu ócio
Que sejamos eternos enquanto dure a palavra!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

*


Eis-me aqui em sangue, corpo, alma e poesia. Prometo dedicar a vós, miúdas letrinhas, os próximos minutos do meu tempo que, por sinal, poderia ser muito melhor aproveitado se a preguiça não viesse amolecer-me os dedos, os braços, as juntas... num entre-rolar-se sem fim que cresce e cresce até que... enfim, toda eu seja preguiça. Que posso fazer? sou uma vítima do meu tempo. Vivo na cidade que, descoberta metrópole, não para de crescer. Parece ter prazer em se tornar um esgoto vivo no qual os esquálidos ratos se envolvem na lama imunda e formatam com gosto o mosaico improbo da raça humana. Homo sapiens sapiens. Vejam só! Não bastava-nos sermos apenas sábios. Somos sábios ao quadrado, vejam só! Não, não me encontro nesse espaço. Não consigo perceber-me indiferente ao mundo, mundo que é vida! Mundo que é fato. Vida que é mundo, que não passa de um sopro, e não é mais que uma compassada latência bailante no vazio da galáxia. Essa palavra me intriga. Tem som de assovio, brilho, dourado, ga-lá-xia. Galáááxia. Garanto que ela, sentada em seu trono, rege a todos nós, sapiens sapiens. Por quê? veja bem: os planetas são móbiles, não são? Existe uma energia que que coordena a vida, não existe? Pois, então. Não há quem me convença que não seja ela, a galáxia! Posto que é infinita, é bela, e além de tudo onisciente, não há razão ou motivo que invalide a minha hipótese.


*

A outra?
Cansou de ser iludida
e fez do bar seu amigo...
Resolveu iludir algum trouxa
Hum! bom pra ela.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Teve medo
de não dar-lhe o que queria
e, assim, nem ao menos
pôde calcular quão grande
era a parte de si mesma
a que estava renunciando.

Teve medo
de fazê-lo sofrer
pois afinal,
ela amava-o tanto
e não podia
fazê-lo sofrer
ainda mais por sua culpa!

Teve medo e arriscou
a viver um pouco menos
a sofrer um pouco mais
ela amava-o, afinal,
ela podia sofrer um pouco por ele

Não são essas as provas de amor de que tanto se comentam?

arrepio

pois que é ele,
o arrepio,
o meu melhor amigo.
afinal, que outra função têm os amigos além de
deixar-me os cabelos em pé?
além de, claro, visitar-me sempre;
faça-se alegria ou angústia
faça-se amor ou raiva
seja saúde(nem sempre) ou doença

Até que a frieza da morte nos separe.

sábado, 18 de julho de 2009

-

elas, que deveriam cair do olhos,
se tornam letras e caem dos dedos
direitinho pro papel
e se encaixam tão perfeitamente...
Que bonitas lágrimas são essas!
Bonitas mesmo.


-

sexta-feira, 17 de julho de 2009

*

"O tempo passa.
Saudade demoooooora..."

*

-

Se
Te odeio, se.
Por incerto que és
Por retratar tão fielmente a impossibilidade
Ai, como te odeio, se!

-

quinta-feira, 16 de julho de 2009

*

Só então pôde realizar a condição em que se encontrava. Viu-a despida e faceira, misturada ao mesmo grito abafado que acabara de proferir. Tomou o sopro de vida que ainda lhe restava entre as mãos e deliciou-se na sensação de ser carne, osso, sangue e alma. Enfim sentiu o ar penetrando-lhe os pulmões e suas vísceras voltaram a funcionar conforme o ritmo compassado do músculo cardíaco lhe alimentava de esperanças. Sentiu o peso que carregava flutuar perdido por entre os olhares que o vigiavam e desceu as escadas em velocidade tamanha que nem ao menos percebia o movimento dos pés, pernas, suor e ar que, apressados, atropelavam-no sem pedir licença. "Perdemos" Foi o que todos pensaram um segundo após o sujeito haver tornado à esquerda e ter-se perdido de vista. Murmurinho. Foi tudo o que restou daquela cena digna de um grande espetáculo.

*

Sonho meu

-

É então que me ponho a desenhar as liras que embalaram o nosso sono,
pois até mesmo a brisa,
mesmo ela, saiba,
ao beijar-me sussura palavras doces
E descreve as borboletas...
e assina sob meus olhos a mais bela das obras de arte.
Sonho meu, delírio.

-

domingo, 12 de julho de 2009

-

Foi quando ela riu como se fizesse isso pela primeira vez, o que, sabe-se, não é bem uma verdade. Aquele som parecia uma das sinfonias de Bach e preencheu todos os aposentos do moderno arranha-céu indo bater em cada uma das paredes e então congelado. O isolamento acústico não permitia que nada, nem uma palavra do que fosse dito ali dentro chegasse aos ouvidos do mundo real. Certa vez um pássaro, daqueles miúdinhos, foi atraído pelo próprio reflexo e deu de cara no vidro espelhado que fazia a parede do empreendimento: ele bateu, caiu, morreu. E ninguém viu. O que queria aquela figura do sarcasmo em um momento como esse? Se rir fosse o melhor remédio, ela certamente não teria se atrevido a desafiar aquele silêncio afiado, "doente!", foi o que ouviu-se.
"Doente?" Indagou aos presentes. "Sou eu a doente? Sou eu quem não aceita que o silêncio ocupe o vazio de minh'alma ou vocês, que aceitam as trevas dominando os olhos? Existe uma vida lá fora , sabia? Existe um sol que brilha marcando a hora em que nós todos deveríamos voltar para casa. Existe um mundo que não para enquanto vocês assistem absortos ao espetáculo de um ser não-vivo que grita!". E riu. Mais uma vez.

-

sábado, 11 de julho de 2009

*
Ah,
isso
acaba
comigo.
Parece
que o mar
caiu dos
meus
olhos
e ainda
sinto o
gosto
amargo
que me
veio à
boca
ontem.

Machuca tanto por dentro...
*

-

E tomou nas mãos o cálice que o aguardava há tanto tempo. Nem mais uma palavra. Ali começava a vida daquele cujo nome deve ser guardado. Levantou, andou até a mais pesada das portas e então viu o expectro de sua alma transgredida absorver-lhe a razão juntamente ao berro mudo que soltou. "Plic, plic, plic"- Aquela goteira parecia tirar sarro da imagem dramática quando todos ali presente haviam parado, mantendo os olhares admirados na direção do homem. Se o corpo não falasse, poderia-se afirmar com certeza que as bocas eram mudas e que todos os que compunham aquele cenário vivo não passavam de ancestrais sobrepostos à cena que acabara de se passar. E foi então que toda a austeridade daquele homem sofreu a mais bela das metamorfoses. Como é linda a angústia de quem não vive! É linda porque liberta a mais bela das borboletas que parecem apenas submergir cada vez mais na escuridão do casulo. E todo o desejo de liberdade é exprimido quando, enfim, alça voo.

-

sexta-feira, 10 de julho de 2009

-

Dessa carne apodrecida
resta apenas o verme
que bebeu fio a fio
as gotas de morte
derramadas no seu
leito de vida...

-

terça-feira, 7 de julho de 2009

Porém

Porém,
"porquê sempre há de haver um deles"
Disse-me um dia alguém
Não sei com que intento,
que palavra ou vão pensamento
vinha à mente deste alguém
Porém, e ei-lo aqui novamente,
pôs-me à mente uma questão
Nos reinos cuja dor é aquém
Haverá um dia espaço
ou apenas um simples abraço
que almejem um belo porém?

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Prolixo
tantas letras
tantas rimas
E tua poesia,
de tão difícil verso,
de tão ardilosa prosa
toda em vão,
sem desatino
Hum! certo destino -
direto pro lixo.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O caso

O ocaso
Do acaso
Não faz caso
Nem tem asco
Dou-lhe um laço
Pelo braço
Puxo o passo
O amasso
O enlaço
O abraço

O-caso

Créditos: Vencimento

quinta-feira, 18 de junho de 2009

-


"Sentimento ilhado, morto e amordaçado volta a incomodar..."


-

sábado, 13 de junho de 2009

Respondi

Responda
Quando o vento soprar chamando teu nome
Não espera mais que um minuto e fala
"Cá estou eu!"

Responda
Quando a brisa do mar não tem a quem chame
Não espera mais que um segundo e grita
"Cá estou eu!"

Responda
Quando o cheiro da terra cheirando a velame
Não espera mais um instante e berra
"Cá estou eu! - vem me buscar"

Pois quando minha voz não mais puder sair...
Envolvê-la-ei em
vento - mensageiro
em brisa - calorosa
em terra - firmemente
E então te buscarei.

"Fica comigo" - respondi.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

É nesse estágio da paixão no qual a tua mente parece oca se nela não há a lua, o amante e seus delírios. Quando tua boca parece insana caso o nome dele não esteja a saltitar docemente bailando por entre os fios de cabelo e as roupas espalhadas sobre o chão. Quando o espelho não mostra mais que a tua imagem refletida na dele, e os teus olhos só tem a ele para enxergar. Quando as estrelas parecem, juntas, conspirar em teu favor, e as flores exalam o melhor de todos os perfumes. Quando os meus olhos se perdem olhando para o infinito e só voltam a se encontrar quando cruzam os teus, amado.

terça-feira, 2 de junho de 2009


*



É que a minh'alma nasceu pra ser livre e não aceitas as correntes que me impõem. Nasci com pernas, pés e braços, isso explica então por quê diabos tenho que usar os versos para voar...



v

domingo, 31 de maio de 2009

Amanheceu como em um dia qualquer, com exceção de que teu cheiro não mais estava grudado em meu suor. As lembranças caíam de meu olhos como gotas d'água em tempo de verão, como a neblina pálida que recobre o carro no mês de junho. Não sei mais o quão diferente fui, nem se igual ainda serei a todos os que me cercam: meu destino foi traçado na mais tortuosa das linhas, sobre precípicios e relevos, em becos - com várias saídas. Da ponta do dedo até o céu, tudo o que vejo é e um espelho de fogo que insiste em me mostrar o que passou, brisa fria que me seduz, lua de ar que sopra do céu e lá de cima, pequena, cintila o horizonte anil. Brilhante!

sábado, 30 de maio de 2009

-


Tentei materializar n'um embrulho, um tantinho de nós dois - inútil pecado. Não se deve jamais trancafiar em concreto o que nasceu para ser livre. Arrancar do peito o soluço que, preso, faz força pra sair engolindo em seco o desejo de não mais sofrer a despedida, diluir em lágrimas o teu sal, doce harmonia, parece-me mais plausível que o raio de sol que vem beijar-me cedo da manhã. Mais que o abraço da luz amarga e quente, abra-me os lábios, embreaga-me. Da tua sede. Afogar-me em teu carinho e morrer assim, viva. Pois que não há em todo esse mundo olhos tão puros que enxerguem a magia do sentir.
E os acordes da viola chamando o teu nome? E o meu suor, sentindo falta do teu?



-

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Gracinha

Nada sei das cores
ou do prisma sob o sol
Dos pincéis me vêm as letras
d'um tom não sei que exista...
D'um som não sei que haja.
Como pousas, borboleta, no pedaço de papel
que me pus a rabiscar?
Atreve-tes pequena, miscêlania colorida,
a tingir com teus farfalhos-disfarce do obscuro-
meus apáticos escritos!
Ousas, miudinha, atingir-me com teu pó
dourado de sol
pesado de ardor
vermelho de amor
E negro. Pois, ah! que sem a escuridão,
borboleta, quem admirar-te-ia?
Quem olhar-te-ia com mínima estupefação?
Agradece, borboleta, agradece à noite.
Pois é dela que vem tua tanta graça.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A salvo

Não larga.
Segura minha mão
só mais um instante
E assim seremos um só
pele, osso. E alma
Envolve-me os abraços,
e em fração de suspiro-
sufoco
Embebe minh'alma em saliva
tua, língua, pele, sede.
Que só de fogo queimo
Que só de chama arde
Que só de ti me abraso.
Não mais que um segundo,
eternidade
Que sejamos um do outro, entranhas.
Que queiramos um só ser, converto
do braço, abraço
do selo, beijo
pois que a língua morde
E meu mim não mais pode
ser assim tão Forte.
Sufoco.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

*


- Ó míseros magnatas!

Boçaleza


-Eis a Vossa Realeza...


-

Poesia mesquinha

às vezes penso eu, tanto,
que me vêm à cabeça
os menos poéticos versos.
Penso que me esqueço das rimas
dos repiques de esboço
dos revistos metricados.
Ah! é quando me canso da mesmice
Das rimas pobres que já disse
Afinal, quem é o são, meu Deus,
nesse mundo, que se põe a versear?
Oh, que boçal é ter que pintar sempre
e apenas, as tintas Aurelianas!
Poetinha, poetinha...
Deixe de mesquinhez
Não pense 'comida é apenas
O que vai à pança d'um bom burguês(!)
-boçal.

Secos

Nesses tempos
Há vistas sempre iguais
dentre ruas tão opostas...
Em tempos como este
em que os cheiros se confundem
E os sons não mais divergem
Vencem os bailes
[as]sonoros
Eles
em cada passo diminuto
secam lágrimas de vida
Seco sonhos de passagem
Secos dias que se vão:
molhados.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Palatina

Pedaços de céu, espelhos. Pedaços de vidro cortante, inquietantes, gélidos. Tocam-me a pele, rasgam-me os braços; e as pernas desejam ainda estar de pé. Sendo como a onda, corrente, batida de pedra que quebra e usa, abusa do movimento constante das marés. Estas, por sua vez, manipuladas pela lua, gravidade extra-terrena, luz provinda dos mil-anos [luz]. Buraco-negro dos sentidos, tato. Apalpo cada uma de tuas fibras, cada rígido movimento é apenas tato. Brilho intenso ofusca-me as vistas, quero apenas a visão nossa de cada instante, o olho teu procurando o meu, a busca, o encontro, a visão. Fôlego, vapor que exala de tuas narinas e envolvem o nosso espaço. A essência do teu perfume se mistura à do meu e juntos à essência minha, só minha, compõem a fragância dos nossos corpos. Olfativo desejo. Quando tua voz busca espaço junto a mim, quando não basta que tato, visão e olfato se unam por um instante intenso, posso ouvir os teus sons. É que não basta um pedaço de nós pra que o céu desabe. É que o teu sabor penetra minha língua e ela, inútil, já não sabe mais qual o valor, além do teu sabor, faz dela músculo. Palatos.

domingo, 3 de maio de 2009

Batida

Bateu
O pêndulo do velho relógio na sala vazia
marcando 08:01
O homem do saco faminto na porta
pedindo carinho
O peito da moça deitada na rede
lembrando o verão

Bateu
A hora
A fome
A saudade
Marcou
Molhou
Matou
Morreu

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Poor rhymes

*


I'm like that little blue ship

On the empty of the sea
Everybody look at me
And can see all I want is to be free
I'm like that little blue ship
And you are all that big and blue sea



*

terça-feira, 28 de abril de 2009

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Então eu sinto como se meu eu flutuasse a cada suspirar... Cada lambida de beiços faz-me recordar teu hálito sadio e sedutor. Quanto ao toque do meu corpo, só desejam um dos teus braços, abraços, entrelaços. E quero apenas te chamar de "meu, meu, somente meu".




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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Assunto em pauta nas revistas, noticiários e discussões, as conseqüências da devastação ambiental vêm se intensificando progressivamente. Na tentativa de remediar a situação, as organizações mundiais lançam mão de artifícios banais como os Créditos de Carbono e o Protocolo de Kyoto, os quais, como esperado, não surtiram o efeito significativo. As estruturas econômicas e de consumo atuais não permitem que haja o tão discutido desenvolvimento sustentável. O consumo desenfreado das sociedades atuais não permite que haja a redução necessária da produção de bens e, consequentemente, da exploração dos recursos naturais. Dessa maneira, toda e qualquer tentativa de recuperação do planeta será em vão.

domingo, 26 de abril de 2009

Tentando

Eu queria, também,
ser poeta
Deixar que voem os meus sonhos
Entregar-me em palavras ao infinito
Fazer das palavras o espelho
Fazer dos poemas o reflexo
Ver-me por fora
Entregar-me por dentro
Morrer por letras
viver de paixão
Eu queria, também,
ter palavras
Que te acolham como o colo
Que te seque como a brisa
Fazer de ti meu abrigo
Fazer de mim teu seguro.
Poeta!

terça-feira, 21 de abril de 2009

Calo

Cale-se
Não quero ouvir os impropérios
que saltam da tua boca, sinfonia
Não quero privar meus olhos
da tua pele, luar
Banir os ouvidos
à tua voz, melodia
Não quero mais falar.
Quero bailar,
sorrir,
amar.
Tento agora não sentir,
ouvir,
calar.
Exaurir-me dos [teus] sentidos:
veludo, amargo, quente.
Suado. Ardente.
Calo-me.

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"Só uma palavra me devora :
Aquela que meu coração não diz"



As outras tantas? Devoro-as eu.


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quarta-feira, 15 de abril de 2009

*


"E se mais, que eu, um dia te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher!
Bendito seja o beijo dessa boca!"

[Florbela Espanca]

“Sejam vocês mesmas! Estudem cuidadosamente o que há de positivo ou negativo na sua pessoa e tirem partido disso. A mulher inteligente tira partido até dos pontos negativos. Uma boca demasiadamente rasgada, uns olhos pequenos, um nariz não muito correto podem servir para marcar o seu tipo e torná-lo mais atraente.
Desde que seja seu mesmo.”
(Helen Palmer)


"Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo."
[Clarice Lispector]


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terça-feira, 14 de abril de 2009

Silêncio.
Depois do vômito de fúria
da transpassagem brusca e louca
Nada mais que o silêncio.
Um agradecimento-
sarcasmo
Emergi tua imagem
no buraco-negro do desprezo
Fiz questão de apagar de mim
As lembranças -
auto-flagelo
Quero crer que não te quero
Creio que não fui nada
Sei que me desprezas
Agora mais que sempre.
Odeio.
Vi o horizonte cor-de-rosa
Descolor, e agora negro
Do sublime ao desprezível
Odeio.
E o que mais odeio...
É que nunca vou poder fazer contigo
o que comigo tu fizeste.
.Silêncio